quarta-feira, 13 de março de 2013

O quadro de Pedro

O quadro pintado na parede incomodava a Pedro
As manchas de tinta fresca na parede o dopavam de alguma maneira

Pedro era do tipo que gostava fácil
Que lavava o prato sem reclamar
Antes de dormir orava baixo
Brincava de sonhar enquanto lidava consigo

Mas o quadro pintado na parede ainda o incomodava
Suas almofadas pareciam ter sido tingidas com sangue

Pedro ouvia ruídos ao longe, talvez no fim da rua
Conversava com seus gatos surdos
Morava só em si, na parte de cima de dentro do armário
Limpava os prantos sem dor, esperando seu ocaso

Mas ainda assim, o quadro na parede o incomodava
Como se fosse aquele velho ranger desafinado de um carro acabado passando na rua

Pedro a amava
Pintou a dedo a musa de seus pesadelos mais medonhos
Aquela que fugiu sem ver a flor que brotara no jardim
Morreu a fome de tudo que era doce em Pedro
A fantasia cafeinada deve vir de algum lugar

Pedro rasgou o quadro da parede
Dividiu-o em pedaços bem menores que sua saudade
Só então sentiu falta do quadro, da dor e dela
Só então percebeu que do quadro saiam seus restos mortais mais sinceros
Transformados em tinta, pó e sangue pra guardar o que se foi.

(Bruno de Santana Cruz, 13/03/2013)

segunda-feira, 11 de março de 2013

Chuvas de dezembro

- “Sua barba é boa!”.
Suspirou ela
Depois sorriu, possivelmente tentando entender o que estava fazendo
O cheiro de vinho barato amortecia a queda
Afastava a preocupação com o depois

- “E você é linda!”
Emendou ele, apostando uma possível resposta
Sorriu também e a beijou, sem uma deixa pra comentários
E assim bordaram o resto do dia, sem saber se realmente estavam bem
Se estavam vivos, ou se estavam na terra

A cama permanecia quente
Mas agora eles dançavam lá fora, na chuva, na lama, pra curar o mal
Pra lavar o sal do suor e fazer suas preces
Mataram suas dores, se doaram e entoaram outras canções

Até hoje não sabem o que se passou, ou fingem muito bem
A métrica cética nunca lhes funcionou
Talvez nem soubessem somar, só olhar...
Um ao outro, o sol posto e a lua por fim, luz.

(Bruno de Santana Cruz, 11/03/2013)