quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Passeio Público

Eu conheci bêbados demais
Mendigos, prostitutas, pastores
Ovelhas, rebanhos e trabalhadores

Codifiquei verme por verme 
Fome por fome
Ideia por ideia em espécie viva
Conheci demais
E sei, que uma ponta leva a outra

Conheci mulheres
Que em seus motivos
Tragavam-se 8 maços de tédio por dia

E homens, com seus ternos
Que bebiam barris de decepção
Por toda a semana

E putas, que viraram moças
E freiras, que se deram
E depois deram pra alguns
E viram a verdade
E não quiseram mais sair de lá
Nem voltar pra casa

Que em casa, que abriga teus maiores medos
Lá no mundo, o mundo oculto na rua
A gente vê demais

E descobre
Que de nada a gente sabe
E que de tudo que é provado
Com o tempo se refaz.

(Bruno de Santana Cruz, 18/10/2013)

Retrato Único

E um dia faltou luz
E o diálogo rugiu
E ela notou o quanto seu beijo era bom
E ele não precisou fugir

Naquela noite, compartilharam-se em silêncio
Com velas, incensos e outros pecados
Naquela noite, a luz voltou a brilhar...

(Bruno de Santana Cruz, 29/10/2013)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Mortal

Você não sabe o que quer
Até lembrar-se do que queria
De um modo ou de outro
As ruas se rendem umas as outras
E se beijam no final da esquina.

Ela me levou a lugares novos
Apresentou-me a pessoas
E aprontava-me o café, todas as manhãs
Cordialmente, rendia-me alguns afagos
Destilava-me minunciosamente
E o fazia tão bem que eu não notara
Até estar desproporcionalmente decomposto
Era, de fato, um palhaço ultrapassado, nas ruínas do novo mundo.

Uma única luz iluminava a rua
Talvez fosse esta apenas, que iluminasse meus sentidos
Percebia os carros, as flores, a rota, a selva, tudo em volta do que era fútil
Atrevia-me a contar teus sinais, tuas voltas e com o tempo, já saberia o mapa de cor de teu corpo
Onde gemias, onde chorava, onde gritava e até o que lhe fizesse sorrir
Com mais tempo ainda, já fazia espontaneamente
Através de teus desvios, desviava eu, minhas intenções
Perversas.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Eu, mentiroso

Eu reconheço um mentiroso a uma légua de distância
Rodeando as fogueiras de aldeias fantasmagóricas
Conheço seu cheiro imundo, suas imagens aleatórias
E suas falácias esbanjadoras afirmando a comunhão

Desconjuro todo bem que me fizer um mentiroso
No final do dia, do ano, da vida, não me servirá de nada
E por mais que o espanquemos, ele sempre sairá como fumaça
Vagando a eternidade do supremo saber, ah mentiroso!

Eu conheço um mentiroso atravessando a rua
Sentado na praça, na fila de um banco, tocando violão
Eu conheço tanto um mentiroso, que seria eu até um deles
Sentado na máquina, relendo antigos versos, roendo minhas unhas
Fazendo meus castelos, seria eu, eu mesmo.

(Bruno de Santana Cruz, 19/07/2013)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Amor retificado

Era dois em dois
Como dois em dois da certo
Depois era o caos
Como o mal vem, pra um lado ou pro outro

Depois eram flores
Como rosa em rosa cega, fere, fisga e encanta
E o resto era flash, quarto fechado, mão que afaga
E o mundo, era pequeno demais pra mim
Enorme demais pra você

E o beijo também era enorme
Enorme que dorme e cobre
E o ouro desafio, sossego e retidão
E o mau se foi por mar
Como em céu e terra, sempre haverá de ser

E o raio era eclipse, num clipe de papel
Então eram outros risos, outras formas de ver você
E agora somos nós dois, de um lado, no mesmo canto
Sossego é nosso encanto, a carne, o verde, o encarte
E a escuridão faz parte, dos sonhos que hão de vir.

(Bruno de Santana Cruz, 11/07/2013)

terça-feira, 9 de julho de 2013

Vertigem

Não me disse pra fugir
Quando por deus, jurou ser sincera
E o lapso abismo teátrico
Desmancha o contato carnal

Mas só não se perca
Por onde imagina não me encontrar
Que em partes de terra eu sou teu final
Provérbio, vereda, origem do caos

(Bruno de Santana Cruz, 10/07/2013)

terça-feira, 18 de junho de 2013

Juízo

- Ele deve estar fora de si.
- Muito pelo contrário. Ele está totalmente dentro de si, nós é que estamos fora dele.

(Bruno de Santana Cruz, 17/06/2013)

Alice no país das verdades

Alice, cortou os pulsos
De seu corte esvaíram-se sonhos
Que mancharam o tapete do seu quarto
Tapete que ganhara de sua tia Inácia
Após tê-lo trocado por um quadro bisonho
No quarto, cartas e taças espalhadas ao chão

A dor da navalha que abrira os pulsos e as veias
Feriram a todos de sua família, até o vô Pedro
Que nunca chorara, desabou em lágrimas incessantes
Feridas são coleções de dores; que guardamos junto à cabeceira da cama
Fantasiadas às paranoias de outrora, de bem antes

Cassandra, sua mãe, vivera sempre dosada em remédios
Desde quando o marido havia amputado sua vida
De maneira irônica a trajetória da vida pode ser trágica
Se ajoelhava chorando pela filha em frente a um quadro
Mas parecia que nada ouvia Nossa Senhora Aparecida

Alice ao cortar os pulsos projetou-se involuntariamente na eternidade
No abismo sinistro de seus medos que tanto a sufocara durantes anos
Ela havia sonhado muito, mas tudo agora não passava de repúdios;
Tristezas cobriram seus olhos azuis... A eternidade a seduzira
Para um abstrato não muito diferente do seu real
O nada lhe abraçou num aperto cortante, soturno, frio e sem fim.

(Bruno de Santana Cruz/Thalles Nathan, 10/02/12)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Máscara

Não sei se forçar essa cara de mau
Já me é tão vantajoso assim
As pessoas passam por mim
De noite, nas avenidas e acham que sabem demais

Acham que podem me apedrejar
Que um murro a mais não vai doer
E o meu uso da máscara forte pro frio
Se quebra no calor dos falsos corações

(Bruno de Santana Cruz, 14/06/2013)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Uma mudança de planos

“Você não pode obrigar ninguém a lhe amar”
Foi o que ela me disse antes de partir lá pela décima quarta vez
Acendeu seu cigarro cautelosamente
E partiu em meio a fumaça de ilusão

As lentes embasadas dos meus óculos
Identificavam suas porções de certezas
Dobrando a esquina pela última vez
Passos largos, de pressa, de quem queria voar

Peguei-me pensando mais uma vez
Sobre o quão frágil é todo esse lance de amor
Que a gente idealiza, monta, desmonta, desarma e cai da cama
É a vida começando a surgir no raiar do dia, na porta entreaberta do armário
Que eu me esqueci de fechar, da última vez que bebi.

(Bruno de Santana Cruz, 12/06/2013)

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A fuga

As pessoas correm de mim
No jardim ensolarado, correm
Em cima da cama, correm
No pátio da escola, nas sinaleiras
No topo do precipício, na beira da praia, correm.
Em meio a suas pressas, correm
Suam de tanto correr e de dizer o que não é preciso
E foi correndo de mim
Que eu parei aqui, bem do meu lado.

(Bruno de Santana Cruz, 10/06/2013)

domingo, 9 de junho de 2013

Rito para um dia menos ruim

Custava caro demais jogar seus trapos velhos na maleta e andar
Fugir deste destino pré-concebido e imoral que lhe fora imposto
Barato apenas era o cigarro, ou a caneta e guardanapo, ou a pior bebida do bar
Que estalando no fundo da garganta já não lhe fazia sentindo algum

Sentado em mais uma rua imunda, fedendo a esgoto
Decidia se era a carne ou o óbvio
Que lhe sustentava em pé nessa vida insana

Já não conseguia decifrar com quais palavras
Poderia contar pra vestir-se em suas festas encarnadas
No mundo em que se pôs a uivar.

Três, quatro, cinco, oito da manhã
Seus olhos eram vermelhos de um sono profundo
Do qual não conseguia provar

A luz no fim do túnel era verde, de limo, escorregadia
Que lhe escapava sempre ao cair da tarde
Levava desse jeito as coisas, pra não pensar muito
Pra não doer demais, pra não sobrar nem parte, nem arte
Nem molho, nem sopro, que o pudesse sussurrar novamente, ates do início do dia.

(Bruno de Santana Cruz, 08/06/2013)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Conferência

Era a maneira com que eles riam das coisas
Que me incomodava tanto
De como compravam roupas novas
Para fazer conferência nas festas
E puxavam suas mulheres pelo braço
Como se fossem um adereço social
- “A vida é um palco”, dizia o poeta
E disso eles sabiam muito bem.

(Bruno de Santana Cruz, 10/04/2013)

terça-feira, 9 de abril de 2013

Simpatia de esquina

Ela no fundo não é bem o que parece ser
Com seu sorriso plástico para dias de sol
E seu jeito desengonçado de andar, de fugir de si mesma
Esperando que alguém a segure e diga frases feitas
As quais nunca ousou pronunciar
Não sei bem o que a espera no fim da próxima esquina
Mas posso jurar que a vi sorrir e piscar, ao passar por mim outra vez.

(Bruno de Santana Cruz, 09/04/2013)

quarta-feira, 13 de março de 2013

O quadro de Pedro

O quadro pintado na parede incomodava a Pedro
As manchas de tinta fresca na parede o dopavam de alguma maneira

Pedro era do tipo que gostava fácil
Que lavava o prato sem reclamar
Antes de dormir orava baixo
Brincava de sonhar enquanto lidava consigo

Mas o quadro pintado na parede ainda o incomodava
Suas almofadas pareciam ter sido tingidas com sangue

Pedro ouvia ruídos ao longe, talvez no fim da rua
Conversava com seus gatos surdos
Morava só em si, na parte de cima de dentro do armário
Limpava os prantos sem dor, esperando seu ocaso

Mas ainda assim, o quadro na parede o incomodava
Como se fosse aquele velho ranger desafinado de um carro acabado passando na rua

Pedro a amava
Pintou a dedo a musa de seus pesadelos mais medonhos
Aquela que fugiu sem ver a flor que brotara no jardim
Morreu a fome de tudo que era doce em Pedro
A fantasia cafeinada deve vir de algum lugar

Pedro rasgou o quadro da parede
Dividiu-o em pedaços bem menores que sua saudade
Só então sentiu falta do quadro, da dor e dela
Só então percebeu que do quadro saiam seus restos mortais mais sinceros
Transformados em tinta, pó e sangue pra guardar o que se foi.

(Bruno de Santana Cruz, 13/03/2013)

segunda-feira, 11 de março de 2013

Chuvas de dezembro

- “Sua barba é boa!”.
Suspirou ela
Depois sorriu, possivelmente tentando entender o que estava fazendo
O cheiro de vinho barato amortecia a queda
Afastava a preocupação com o depois

- “E você é linda!”
Emendou ele, apostando uma possível resposta
Sorriu também e a beijou, sem uma deixa pra comentários
E assim bordaram o resto do dia, sem saber se realmente estavam bem
Se estavam vivos, ou se estavam na terra

A cama permanecia quente
Mas agora eles dançavam lá fora, na chuva, na lama, pra curar o mal
Pra lavar o sal do suor e fazer suas preces
Mataram suas dores, se doaram e entoaram outras canções

Até hoje não sabem o que se passou, ou fingem muito bem
A métrica cética nunca lhes funcionou
Talvez nem soubessem somar, só olhar...
Um ao outro, o sol posto e a lua por fim, luz.

(Bruno de Santana Cruz, 11/03/2013)