terça-feira, 18 de junho de 2013

Juízo

- Ele deve estar fora de si.
- Muito pelo contrário. Ele está totalmente dentro de si, nós é que estamos fora dele.

(Bruno de Santana Cruz, 17/06/2013)

Alice no país das verdades

Alice, cortou os pulsos
De seu corte esvaíram-se sonhos
Que mancharam o tapete do seu quarto
Tapete que ganhara de sua tia Inácia
Após tê-lo trocado por um quadro bisonho
No quarto, cartas e taças espalhadas ao chão

A dor da navalha que abrira os pulsos e as veias
Feriram a todos de sua família, até o vô Pedro
Que nunca chorara, desabou em lágrimas incessantes
Feridas são coleções de dores; que guardamos junto à cabeceira da cama
Fantasiadas às paranoias de outrora, de bem antes

Cassandra, sua mãe, vivera sempre dosada em remédios
Desde quando o marido havia amputado sua vida
De maneira irônica a trajetória da vida pode ser trágica
Se ajoelhava chorando pela filha em frente a um quadro
Mas parecia que nada ouvia Nossa Senhora Aparecida

Alice ao cortar os pulsos projetou-se involuntariamente na eternidade
No abismo sinistro de seus medos que tanto a sufocara durantes anos
Ela havia sonhado muito, mas tudo agora não passava de repúdios;
Tristezas cobriram seus olhos azuis... A eternidade a seduzira
Para um abstrato não muito diferente do seu real
O nada lhe abraçou num aperto cortante, soturno, frio e sem fim.

(Bruno de Santana Cruz/Thalles Nathan, 10/02/12)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Máscara

Não sei se forçar essa cara de mau
Já me é tão vantajoso assim
As pessoas passam por mim
De noite, nas avenidas e acham que sabem demais

Acham que podem me apedrejar
Que um murro a mais não vai doer
E o meu uso da máscara forte pro frio
Se quebra no calor dos falsos corações

(Bruno de Santana Cruz, 14/06/2013)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Uma mudança de planos

“Você não pode obrigar ninguém a lhe amar”
Foi o que ela me disse antes de partir lá pela décima quarta vez
Acendeu seu cigarro cautelosamente
E partiu em meio a fumaça de ilusão

As lentes embasadas dos meus óculos
Identificavam suas porções de certezas
Dobrando a esquina pela última vez
Passos largos, de pressa, de quem queria voar

Peguei-me pensando mais uma vez
Sobre o quão frágil é todo esse lance de amor
Que a gente idealiza, monta, desmonta, desarma e cai da cama
É a vida começando a surgir no raiar do dia, na porta entreaberta do armário
Que eu me esqueci de fechar, da última vez que bebi.

(Bruno de Santana Cruz, 12/06/2013)

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A fuga

As pessoas correm de mim
No jardim ensolarado, correm
Em cima da cama, correm
No pátio da escola, nas sinaleiras
No topo do precipício, na beira da praia, correm.
Em meio a suas pressas, correm
Suam de tanto correr e de dizer o que não é preciso
E foi correndo de mim
Que eu parei aqui, bem do meu lado.

(Bruno de Santana Cruz, 10/06/2013)

domingo, 9 de junho de 2013

Rito para um dia menos ruim

Custava caro demais jogar seus trapos velhos na maleta e andar
Fugir deste destino pré-concebido e imoral que lhe fora imposto
Barato apenas era o cigarro, ou a caneta e guardanapo, ou a pior bebida do bar
Que estalando no fundo da garganta já não lhe fazia sentindo algum

Sentado em mais uma rua imunda, fedendo a esgoto
Decidia se era a carne ou o óbvio
Que lhe sustentava em pé nessa vida insana

Já não conseguia decifrar com quais palavras
Poderia contar pra vestir-se em suas festas encarnadas
No mundo em que se pôs a uivar.

Três, quatro, cinco, oito da manhã
Seus olhos eram vermelhos de um sono profundo
Do qual não conseguia provar

A luz no fim do túnel era verde, de limo, escorregadia
Que lhe escapava sempre ao cair da tarde
Levava desse jeito as coisas, pra não pensar muito
Pra não doer demais, pra não sobrar nem parte, nem arte
Nem molho, nem sopro, que o pudesse sussurrar novamente, ates do início do dia.

(Bruno de Santana Cruz, 08/06/2013)